
O Portal SNA conversou com Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), que passou por recente reformulação em sua estrutura de governança e administração. Tendo como eixo temático a pujança do cooperativismo agropecuário, a entrevista abordou assuntos como crédito rural, cobertura securitária, reforma tributária e aplicação de novas tecnologias no campo, com foco nos cooperados.
Com sólida formação acadêmica no Direito e rica trajetória em prol do cooperativismo, Tania assumiu o novo cargo em 2025, após ocupar diversas funções de destaque no Sistema OCB. Foi a primeira mulher a exercer a gerência geral e também a superintendência. É pioneira em muitas instâncias do cooperativismo e atua diariamente para garantir maior participação feminina em posições de liderança.
Tania também foi eleita em dezembro de 2024 para a presidência do Instituto Pensar Agropecuária (IPA), e é membro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) e da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Em 2021, foi reconhecida como uma das 100 mulheres mais poderosas do agronegócio brasileiro pela Revista Forbes.
SNA: As cooperativas agrícolas estão entre as mais bem sucedidas do país nesse modelo de negócios. Ao que atribui desempenho tão pujante e como a reforma de governança feita recentemente pela OCB deve impactar o segmento?
Tania Zanella: O desempenho das cooperativas agropecuárias é resultado de uma combinação muito concreta de fatores: escala territorial, gestão profissional e a integração entre produção, assistência técnica, armazenagem, industrialização e comercialização, além de um compromisso permanente com qualidade e previsibilidade para com o cooperado. Na prática, a cooperativa reduz custos de transação, organiza a oferta, fortalece o poder de negociação e amplia o acesso a elementos decisivos como tecnologia, crédito, insumos e mercados, inclusive com estratégias coletivas de rastreabilidade, sustentabilidade, entre outras formas de agregação de valor.
A reforma de governança recém aprovada pela OCB, com o modelo dual, tende a potencializar esse ciclo. Ao separar com mais nitidez o papel estratégico e institucional do Conselho de Administração e a condução executiva do dia a dia, ganhamos agilidade operacional, clareza de responsabilidades e capacidade de execução mais consistente, isso tudo preservando a legitimidade do sistema representativo e a continuidade das ações desenvolvidas. Isso traz impactos positivos ao cooperativismo agropecuário porque tem o potencial de acelerar decisões, qualificar ainda mais as entregas e fortalecer nossa atuação em temas críticos como competitividade, segurança jurídica e acesso a mercados.
SNA: Entre as políticas públicas voltadas para o setor, sobressaem as críticas ao seguro rural, além dos altos juros das linhas de crédito do Plano Safra. Como enxerga esse panorama e de que forma pode haver um aperfeiçoamento desses pontos cruciais?
Tania Zanella: Crédito e gestão de riscos precisam caminhar juntos. Quando o juro sobe e, ao mesmo tempo, o seguro rural não tem capilaridade, previsibilidade orçamentária e cobertura compatível com a realidade, o produtor fica mais exposto e isso, consequentemente, encarece o custo de produção. Temos acompanhado as críticas do setor justamente por conta do crédito mais caro e das fragilidades na cobertura do seguro rural, o que pressiona o financiamento e reduz a eficácia e a efetividade da política agrícola.
Acreditamos que o aperfeiçoamento passa, ao menos, por três frentes que se complementam. Primeiro, o crédito e o seguro rural devem ser encarados como política de Estado, com orçamento previsível e compatível com a realidade, regras estáveis e desenho que converse com as pluralidades regionais.
Segundo, deve haver um maior incentivo e acessibilidade aos instrumentos de mitigação de risco conectados ao crédito, como uma subvenção equilibrada com as prioridades do setor, estímulo a modelos paramétricos, onde fizer sentido, integração com o zoneamento e boas práticas.
Por último, e sem esgotar as possibilidades, o uso da cooperação como alavanca: as cooperativas, incluindo as de crédito, podem ampliar a educação financeira e a gestão de riscos, orientando o cooperado na contratação, estruturando compras coletivas e dialogando com as seguradoras e com o governo sobre produtos mais aderentes ao campo.
SNA: Qual sua avaliação sobre a Reforma Tributária no tocante às cooperativas agropecuárias, bem como sua gradual implementação ao longo dos próximos anos?
Tania Zanella: A Reforma Tributária avançou de forma relevante ao reconhecer o ponto essencial do cooperativismo: o entendimento de que cooperativas representam um modelo econômico com natureza própria. A Lei Complementar 214/2025 trouxe o regime específico e assegurou a não incidência de IBS e CBS sobre o ato cooperativo, além de regras importantes de transição. Esse entendimento dá previsibilidade e reduz o risco de distorções concorrenciais.
Dito isso, a implementação gradual exige acompanhamento técnico contínuo, porque é na transição que surgem inseguranças, obrigações acessórias, adequações de sistemas, interpretações e padronizações que se fazem necessárias. Há iniciativas recentes do governo para organizar o início da aplicação da Lei, como um período de adaptação já no início de 2026, e isso é positivo. Nosso papel será permanecer muito próximo dos reguladores e do Congresso para assegurar que o que está na Lei seja respeitado na regulamentação e na operação, evitando retrocessos e litígios desnecessários.

SNA: As cooperativas do agro são pioneiras na aplicação de tecnologias e outras ações inovadoras. Entre as prioridades estipuladas pelo Sistema OCB para 2026, destaca-se a inteligência artificial. Como acha que essa ferramenta será assimilada pelos cooperados agrícolas?
Tania Zanella: A inteligência artificial deve ser assimilada de maneira similar a outras tecnologias, por meio de resoluções simples para problemas reais. No contexto do agronegócio cooperativista, isso significa apoiar decisões mais assertivas e de maneira mais rápida, podendo ser do planejamento de safra ao manejo, da logística à comercialização. O produtor ou quem atua no setor não precisa virar “especialista em IA”, ele precisa de ferramentas confiáveis que cheguem por canais que ele já usa, como a assistência técnica, o acompanhamento em dias de campo e capacitações, além, é claro, da sua cooperativa.
E, nesse cenário, a cooperativa tem uma vantagem decisiva, pois ela consegue escalar a tecnologia com governança e confiança. Nosso foco é estimular o uso responsável da IA para estruturar caminhos que possam aumentar a produtividade e reduzir desperdícios, apoiar a gestão, melhorar a eficiência operacional e fortalecer a relação com o consumidor, com dados e rastreabilidade. Isso também passa por qualificação e aqui, novamente, contamos com a força do cooperativismo em transformar inovação em aprendizado coletivo.
SNA: O diálogo com autoridades, produtores e demais representantes do segmento sempre é determinante para mobilizar os esforços e fazer avançar os interesses coletivos, além de frear eventuais retrocessos. Como o cooperativismo agrícola pode aprimorar seu papel nessa cadeia de comunicação?
Tania Zanella: Aprimorar esse papel é, antes de tudo, ter agenda e mensagem unificadas, com base em evidências. O cooperativismo agropecuário ganha força quando consegue traduzir suas demandas em propostas objetivas, entendendo o que precisa mudar, qual o impacto, qual a alternativa viável e como medir os resultados. Isso se constrói por meio do alinhamento com as cooperativas locais, com nossas organizações estaduais e com o Sistema OCB em nível nacional. Assim, podemos continuar atuando de forma articulada e assertiva, para que o tom seja coerente e a defesa seja contínua, não apenas reativa.
Também precisamos ampliar a comunicação “para fora” do setor. O cooperativismo agropecuário tem uma narrativa poderosa, porque entrega produção e resultados, gera renda, organiza pequenos e médios produtores, investe na comunidade, na educação, inovação e sustentabilidade. Quando a sociedade entende e acredita nisso, a pauta ganha cada vez mais legitimidade. E, no relacionamento institucional, a regra é manter a consistência com presença técnica nos debates, transparência e capacidade de construir convergências, especialmente em temas sensíveis como seguro, crédito, infraestrutura, tributação, comércio exterior, dentre outros.
SNA: O ano de 2025 ficou marcado pelo tarifaço americano, e algumas barreiras comerciais ainda persistem. Como isso afetou o cooperativismo agrícola e quais são suas perspectivas nesse cenário de protecionismo crescente?
Tania Zanella: Do ponto de vista do Sistema OCB, considerando a representatividade do cooperativismo no Brasil e a presença dos produtos de nossas cooperativas em mercados de todo o mundo, é natural que medidas adotadas por economias de grande peso, alta renda e amplo mercado consumidor, como é o caso dos Estados Unidos, tenham a capacidade de alterar os balanços globais de oferta e demanda e, consequentemente, redefinir dinâmicas comerciais em escala internacional.
No cooperativismo, esse movimento não é diferente. A dinâmica comercial das cooperativas inseridas nas cadeias de produção diretamente afetadas pelas tarifas impostas pelos EUA precisou ser ajustada, com impactos sobre fluxos de exportação, negociação, planejamento e estratégias de mercado. Ao mesmo tempo, momentos como esse evidenciam atributos centrais do modelo cooperativista. Reafirmamos que nosso modelo de negócios mantém sua resiliência, a capacidade de diluir riscos e de proteger as pessoas em cenários de adversidade.
Essas características são fruto da atuação de mais de um milhão de agropecuaristas cooperados no Brasil, que, por meio do trabalho organizado em suas cooperativas, contam com gestão e governança modernas, além de planejamentos estratégicos de curto, médio e longo prazos. Esse arranjo confere maior estabilidade e segurança ao negócio da cooperativa e ao produtor rural, mesmo em contextos de maior volatilidade internacional.
Essa capacidade de atravessar obstáculos com solidez, no entanto, não se restringe à questão tarifária. O cooperativismo agropecuário lida continuamente com os riscos climáticos, comerciais, logísticos e geopolíticos, que testam a eficiência dos seus planos estratégicos e reforçam o papel das cooperativas como instrumentos de mitigação de adversidades e de garantia de perenidade e prosperidade aos seus cooperados.
Por fim, esse cenário reforça a importância de dar voz aos segmentos afetados. Esse é um papel central da representação exercida pelo Sistema OCB, que mantém canais permanentes de escuta ativa junto à base cooperativista e atua para dar visibilidade e encaminhar essas contribuições ao governo e a entidades parceiras, por meio do diálogo institucional incansável. O objetivo é mitigar os efeitos das barreiras comerciais, e de tantos outros entraves, sobre os produtores e suas cooperativas, preservando a competitividade, a renda e a capacidade de investimento no campo.






