Soja Louca II é reconhecida como nova doença pelo Mapa

Desde a safra 2005/2006, a Soja Louca II vem causando reduções de até 60% na produtividade da soja, principalmente em regiões quentes e chuvosas como os estados do Maranhão, Tocantins, Pará e Mato Grosso. Foto: Mauricio Meyer/Divulgação Embrapa Soja
Desde a safra 2005/2006, a Soja Louca II vem causando reduções de até 60% na produtividade da soja, principalmente em regiões quentes e chuvosas como os estados do Maranhão, Tocantins, Pará e Mato Grosso. Foto: Mauricio Meyer/Divulgação Embrapa Soja

Há dez anos os pesquisadores da Embrapa e parceiros trabalhavam na identificação da causa da Soja Louca II (SL-II), que acaba de ser reconhecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como uma doença causada pelo nematoide Aphelenchoides sp.

“A identificação do agente causal da SL-II representa uma descoberta importante, porque direciona as atividades de pesquisa para a definição das estratégias de manejo, o que trará um enorme alento aos produtores que amargam prejuízos com uma doença até então desconhecida”, revela o pesquisador Maurício Meyer, da Embrapa Soja.

Desde a safra 2005/2006, a Soja Louca II vem causando reduções de até 60% na produtividade da soja, principalmente em regiões quentes e chuvosas como os Estados do Maranhão, Tocantins, Pará e Mato Grosso. A doença apresenta como sintomas principais: plantas de soja com haste verde, retenção foliar e abortamento de vagens antes de finalizar seu ciclo.

Quando o problema foi detectado, os pesquisadores da Embrapa descartaram as hipóteses de ataque de percevejo (agente causador da Soja Louca I), problemas nutricionais ou distúrbios fisiológicos da planta.

“Esses sintomas, observados na década de 1980 em algumas áreas de soja, eram conhecidos por Soja Louca e também causavam a incidência de haste verde e retenção foliar no final do ciclo da cultura, mas a Soja Louca II era diferente”, explica Meyer.

Investigando o problema

Para identificar as possíveis causas do novo problema, monitorar sua ocorrência no Brasil e propor alternativas de manejo, em 2011, o pesquisador Maurício Meyer desenvolveu pesquisa em parceria com diversas instituições. A primeira comprovação foi que a Soja Louca II não era causada por ácaros ou vírus.

A partir de 2012, parte dos trabalhos de pesquisa se voltaram a investigar a associação de nematoides do gênero Aphelenchoides à ocorrência de SL-II, constatando-se frequentemente sua presença em amostras de plantas com sintomas.

Somente em março de 2015, a Embrapa e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) conseguiram isolar e multiplicar o nematoide Aphelenchoides sp., por meio do aperfeiçoamento e da adaptação de métodos laboratoriais.

Nesta ocasião, amostras de hastes e folhas de soja, coletadas em áreas comerciais e experimentais no Maranhão e no Pará, com e sem os sintomas de Soja Louca II foram enviadas ao laboratório da Epamig, em Uberaba (MG), quando se observou elevada concentração do nematoide apenas nas amostras de plantas sintomáticas.

De acordo com Luciany Favoreto, pesquisadora da Epamig, a análise foi feita por meio de uma metodologia adequada ao gênero do nematoide, revelando sua associação com a SL-II.

Método de identificação da doença

Com o isolamento e a multiplicação do nematoide em laboratório, foi possível realizar um procedimento chamado de ‘Postulado de Koch’, que permite identificar o agente causal de uma doença. O teste consiste em observar se as plantas sadias, ao serem inoculadas com o patógeno, apresentam os sintomas da doença e se é possível reisolar o mesmo patógeno em outras partes da planta, após a expressão dos sintomas.

O pesquisador Maurício Meyer inoculou plantas de soja sadias com diferentes concentrações de Aphelenchoides sp. e em diferentes fases de desenvolvimento da cultura. Após 12 dias, observou-se que as plantas começaram a apresentar os sintomas da SL-II.

“Essas plantas doentes foram enviadas ao laboratório e constatamos uma expressiva quantidade do nematoide, comprovando-se assim que ele desencadeia a doença”, explica.

Principais sintomas

Meyer diz que os sintomas da SL-II são observados no início da fase reprodutiva da soja, que apresenta afilamento das folhas do topo das plantas, enrugamento das folhas e engrossamento das suas nervuras. Além disso, Meyer explica que as folhas com sintomas apresentam coloração mais escura e menor pilosidade em relação às normais.

Também é observado que as hastes exibem deformações e engrossamento dos nós. As vagens podem apresentar lesões, rachaduras, apodrecimento e redução do número de grãos.

O pesquisador releva ainda que as plantas afetadas registram um alto índice de abortamento de vagens, provocando, muitas vezes, a indução de uma nova floração e sintomas de superbrotamento.

“Esse abortamento é mais intenso na parte superior das plantas, diminuindo em direção à base, o que impede o processo natural de maturação, permanecendo a planta verde mesmo após a aplicação de herbicidas dessecantes”, relata.

Manejo da SL-II

Segundo Meyer, serão implementados novos estudos voltados para a investigação dos aspectos da biologia do nematoide, tais como as formas de sobrevivência, plantas hospedeiras alternativas, colonização e infecção na soja, para definir claramente as medidas de manejo a serem preconizadas.

Apesar da necessidade de se continuar os estudos, o pesquisador entende que já é possível apresentar algumas alternativas de manejo para o problema.

“Como não são conhecidas cultivares de soja tolerantes ao problema, recomendamos um adequado manejo do solo e da cultura”, orienta Meyer. “Indicamos a dessecação antecipada à semeadura de soja e um efetivo controle de plantas invasoras imediatamente após a emergência da soja”, completa.

Fonte: Embrapa Soja 

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