Produtividade da pecuária leiteira é inferior à metade da média mundial

Publicado em 19/04/2017

Brasil conta com aproximadamente 1,3 milhão de pecuaristas de leite, atuando em fazendas que, por sua vez, são responsáveis pela ordenha de 23 milhões de vacas. Foto: Divulgação SIS/Sebrae

A produção brasileira de leite mais que dobrou nas últimas duas décadas, ao saltar de 15,7 bilhões de litros em 1994, para 35 bilhões, em 2014, conforme dados mais recentes da Pesquisa Pecuária Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O desempenho da produção nacional de leite, ainda assim, fica bem aquém em comparação à média mundial: 1,6 mil litros contra 3,5 mil litros por vaca ao ano. Nos Estados Unidos, de acordo com o Sistema de Inteligência Setorial (SIS) do Serviço de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), algumas fêmeas bovinas alcançam uma média anual de 10,4 mil litros.

Conforme Renata Magalhães Schneider Simone, analista de Inteligência do SIS/Sebrae, em entrevista à equipe SNA/RJ, essa discrepância se deve a fatores relacionados ao clima e às raças mais produtivas, mas principalmente à alimentação.

“A quantidade de leite produzido por vaca está diretamente relacionada com as condições as quais o animal está submetido, ou seja, fatores como a alimentação, clima ou até mesmo a tecnologia no manejo influenciam a produtividade”, comenta a especialista.

Diretor da Sociedade Nacional de Agricultura e representante da SNA na Câmara Setorial do Leite e Derivados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Alberto Figueiredo ressalta que a “maior parte do rebanho bovino nacional não tem especialização genética para produção de leite”.

“Também não são observados os requisitos mínimos de conforto animal e alimentação adequada, sendo essas as principais causas da baixa produtividade média”.

Segundo Figueiredo, que também é secretário Municipal de Agricultura de Resende (RJ), “pelo fato de essas tecnologias exigirem maior comprometimento financeiro por parte do produtor, aumentam os riscos de insucesso, se não forem observados conceitos técnicos indispensáveis, o que leva uma grande maioria de produtores a submeter seus rebanhos a condições inadequadas de alimentação, trazendo, como consequência, a redução da produção média”.

A analista de Inteligência do SIS/Sebrae reforça que o “Brasil é um país extenso, com regiões bastantes distintas uma das outras”. “Por conta disso, alguns Estados possuem características mais ou menos propícias à produção de leite”, comenta Renata.

Ela cita que no Sul do país, por exemplo, estão os maiores produtores de leite, “provavelmente pelo fato de lá existir um clima mais adequado para a atividade”. “Já na região Sudeste, principalmente acima do Estado de São Paulo, o animal sofre um estresse térmico que prejudica a produção de leite.”

A analista comenta que também “é importante ressaltar que a média brasileira de produção de leite considera produtores rurais que não investem o suficiente na modernidade do campo e, consequentemente, possuem baixo nível técnico e controle de custos, logo, possuem baixa produtividade”.

Conforme Renata, “mesmo com condições climáticas atípicas, é possível aumentar a produção de leite investindo na alimentação do animal, fornecendo uma nutrição específica, de acordo com a fase em que ele se encontra”.

 

“A quantidade de leite produzido por vaca está diretamente relacionada com as condições as quais o animal está submetido, ou seja, fatores como a alimentação, clima ou até mesmo a tecnologia no manejo influenciam a produtividade”, comenta Renata Magalhães Schneider Simone, analista de Inteligência do SIS/Sebrae

DIETAS

A alimentação bovina representa o maior custo da produção leiteira e, por isso, o desenvolvimento de dietas adequadas é primordial para que os pecuaristas reduzam esses custos e possam ampliar suas margens de lucros. Esse é o foco do relatório “Dieta para bovinos leiteiros: a importância da alimentação” do SIS/Sebrae, que ainda apresenta fatores que impactam na dieta, tecnologias e cases de sucesso para orientar produtores rurais.

Atualmente, o Brasil conta com aproximadamente 1,3 milhão de pecuaristas de leite, atuando em fazendas que, por sua vez, são responsáveis pela ordenha de 23 milhões de vacas. Para a formulação de rações para as vacas leiteiras, o país utiliza o modelo do National Research Council (NRC), com foco na melhoria da eficiência alimentar, por meio da avaliação da dieta dos bovinos.

“Em 2001, o Conselho Nacional de Pesquisas (dos EUA) apresentou um estudo, com informações suficientes para gerar cálculos de exigência nutricional e de avaliação de alimentos, além de um software que permite formular rações baseadas nesses cálculos”, conta Renata.

Segundo a analista de Inteligência do SIS/Sebrae, por causa da simplicidade e praticidade, esse modelo é o mais utilizado no mundo para formular rações para vacas leiteiras: “Ele é referência no Brasil e, inclusive, outros softwares foram criados baseados nos cálculos do modelo NRC – 2001”.

“O modelo NRC é o mais utilizado no mundo, mas com o avanço da tecnologia existem diversos outros modelos no mercado, que podem ser tão bons quanto ele. O indicado é avaliar, testar e analisar quais opções atendem melhor à necessidade do negócio”, diz Renata.

A analista acrescenta que “alguns modelos são mais complexos e exigem mais informações do usuário, enquanto outros são mais simples e fáceis de utilizar, e isso deve ser levado em consideração na avaliação”.

 

MODELO NRC

Diretor da SNA, Alberto Figueiredo explica que “o NRC é um compêndio de acreditação mundial, que registra as necessidades nutricionais dos animais em cada fase da vida e em cada condição de produção”.

“A maioria dos formuladores de ração adota esses dados para o cálculo das necessidades nutricionais dos animais. No entanto, na hora de escolher as opções de ingredientes, a serem utilizados para a dieta, são usadas informações de pesquisas nacionais, sendo que alguns produtores já utilizam a análise laboratorial dos vegetais e grãos da própria propriedade, com o objetivo de fazer com que esse cálculo fique o mais próximo possível da realidade”, relata Figueiredo.

Por conta de exaustivas pesquisas, continua o diretor da SNA, “o NRC apresenta as necessidades nutricionais absolutamente confiáveis e confirmadas nas pesquisas nacionais”.

“A diferença dos níveis de produção de leite entre outros países e o Brasil está mais relacionada ao custo da terra, que é maior lá fora, portanto, precisa ter maior produtividade para que o negócio seja econômico, menor contingente de pessoas envolvidas com as atividades produtivas, necessitando ter maior produtividade por homem ocupado, além dos programas de subsídios ainda presentes em parte dos países que estimulam o processo produtivo”, cita Figueiredo.

 

“A diferença dos níveis de produção de leite entre outros países e o Brasil está mais relacionada ao custo da terra, que é maior lá fora”, ressalta Alberto Figueiredo, diretor da SNA e secretário Municipal de Agricultura de Resende (RJ). Foto: Raul Moreira/Arquivo SNA

TECNOLOGIAS

Algumas tecnologias associadas à atividade leiteira podem contribuir para o aumento da produção, como softwares de gestão de rebanhos.

“Sem sombra de dúvida, o controle sobre os resultados, tanto de índices de produtividade quanto, principalmente, de custos, é fundamental para o constante aprimoramento do processo produtivo. Nesse caso, os softwares existentes no mercado, e/ou produzidos nas próprias propriedades, com base em planilhas simples, são fundamentais, uma vez que o número de dados a ser considerado dificulta esse controle por métodos manuais”, salienta o diretor da SNA.

Segundo Figueiredo, que apresenta ampla experiência como pecuarista, “o problema é que a maioria dos produtores sequer anota as informações diárias, chegando ao ponto de não saber a data prevista para o parto ou a necessidade de encerramento de lactação”.

“As cinco prioridades para o aumento da produção de leite são: 1. alimentação adequada; 2. alimentação adequada; 3. alimentação adequada; 4. alimentação adequada; 5. alimentação adequada. Depois que se consegue esse parâmetro, pode-se pensar em conforto animal e em genética, para melhorar as condições de produção dos animais”, sentencia.

 

NANOTECNOLOGIA E APPS

Conforme a analista de Inteligência do SIS/Sebrae a utilização de tecnologias mais avançadas na pecuária veio para ficar.

“A nanotecnologia, por exemplo, pode ser utilizada para enfrentar diversos desafios na atividade leiteira, como na identificação de doenças, por meio de nanossensores capazes de permitir mais acurácia nos diagnósticos laboratoriais; e no tratamento contra a mastite, inflamação que pode reduzir a qualidade e a produção de leite, por meio de nanocápsulas que direcionam o antibiótico no interior da glândula mamária”, informa Renata Magalhães.

Segundo a analista, os aplicativos rurais também auxiliam – e muito – a atividade, podendo ser utilizados para monitorar animais, gerenciar rebanhos, avaliar a qualidade do leite, avaliar a produtividade individual do animal, controlar a vacinação, analisar os dados da saúde, gerenciar custos e lucros, entre outros.

“A tecnologia também está presente na inovação de técnicas, máquinas e equipamentos utilizados na atividade.”

De acordo com o SIS/Sebrae, são diversas as tecnologias associadas à atividade leiteira que podem contribuir para o aumento da produção.

* Software de gestão de rebanhos: existem softwares no mercado que contribuem para que o produtor obtenha informações sobre rendimento e desempenho técnico. Esses softwares emitem relatórios e fornecem estatísticas para melhor gerenciamento.

* Software de formulação de dietas: existem programas que formulam dietas, concentrados e suplementos para vacas leiteiras. Alguns, inclusive, oferecem a opção de desenvolver dietas tropicalizadas.

* Novos equipamentos: são diversos os equipamentos necessários para a manutenção e melhoria da atividade leiteira. Por exemplo, cocho, bebedouro, equipamento para mistura do alimento, dentre outros.

 

Por equipe SNA/RJ

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