Desperdício de alimentos: um alerta para o mundo

09/02/2017|
FAO aponta que cerca de 33% de tudo o que é produzido anualmente no mundo vai para o lixo. Deste percentual, 54% das perdas ocorrem na fase inicial do cultivo, passando pela manipulação, pós-colheita e armazenamento. Os 46% restantes são perdidos nas etapas de processamento, distribuição e consumo. Foto: Divulgação

FAO aponta que cerca de 33% de tudo o que é produzido anualmente no mundo vai para o lixo. Deste percentual, 54% das perdas ocorrem na fase inicial do cultivo, passando pela manipulação, pós-colheita e armazenamento. Os 46% restantes são perdidos nas etapas de processamento, distribuição e consumo. Foto: Divulgação

Viver em um planeta onde, em 2015, 795 milhões de pessoas ainda passam fome, deveria ecoar um alerta e levar a ações mais efetivas, principalmente por parte das nações fornecedoras de alimentos, como o Brasil, em relação ao desperdício que favorece a insegurança alimentar em todo o mundo. Isto porque cerca de 1,3 bilhão de toneladas daquilo que poderia virar comida para os famintos vai parar na lata do lixo, ou seja, não chega à mesa do consumidor final.

Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO/ONU) apontam que as consequências econômicas diretas do desperdício de alimentos, excluindo peixes e frutos do mar, chegam a 750 bilhões de dólares por ano. “Mais da metade (54%) da perda de alimentos no mundo ocorre na fase inicial da produção, na manipulação, pós-colheita e armazenagem. O restante (46%) acontece nas etapas de processamento, distribuição e consumo”, informa Alan Bojanic, representante da entidade no Brasil.

Ele informa que os países em desenvolvimento sofrem mais com as perdas durante a produção agrícola, enquanto o desperdício na distribuição e no consumo tende a ser maior nas regiões de renda média e elevada, que respondem por quase 40% destas perdas. “Este número é de 16% nas regiões com baixa renda,” explica Bojanic.

Especialista em indústrias agrícolas e responsável pela infraestrutura rural na FAO, Robert van Otterdijk garante que “com um quarto destes números (750 bilhões de dólares), é possível alimentar 842 milhões de pessoas famintas em todo o mundo”.

Segundo ele, ao “reduzir à metade este desperdício, bastaria aumentar a produção alimentar mundial em 32% para conseguir dar comida a 9 bilhões de pessoas, a população mundial prevista para 2050”, de acordo com projeções demográficas da entidade.

 

NÃO APROVEITAMENTO

Em países industrializados, o desperdício anual pode atingir a um montante de 670 toneladas, enquanto naqueles em desenvolvimento, 630. Segundo Bojanic, frutas, hortaliças, raízes e tubérculos são os alimentos com a taxa mais alta de não aproveitamento.

“Para se ter uma ideia clara do prejuízo causado pelo desperdício, a cada ano, os consumidores dos países ricos “jogam fora” 222 milhões de toneladas, o que quase equivale à quantidade de alimentos produzidos para alimentar a África Subsaariana (230 milhões de toneladas), sendo suficiente para alimentar 870 milhões de pessoas”, comenta o representante da FAO no Brasil.

Bojanic também avalia que o nível mais elevado de desperdício de alimentos nas nações mais ricas “resulta de uma combinação entre o comportamento do consumidor e a falta de comunicação ao longo da cadeia de abastecimento. “Falta planejamento dos consumidores na hora de ir às compras”, analisa.

Ele ressalta que os padrões estéticos desnecessários, logística incorreta de comercialização e prazos de validade incoerentes são alguns exemplos do problema do varejo. Já entre os consumidores, o obstáculo concentra-se principalmente, na má utilização dos produtos.

 

PERDAS ECONÔMICAS

“Este desperdício não só causa grandes perdas econômicas, mas tem também gerado um impacto significativo nos recursos naturais dos quais dependem a humanidade para se alimentar.”

Conforme Alan Bojanic, a cada ano os alimentos produzidos — e não consumidos — utilizam um volume de água equivalente ao fluxo anual do Rio Volga na Rússia, e são responsáveis pela emissão de 3,3 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa na atmosfera do planeta.

“Diante deste quadro, deve ser dada prioridade à redução do desperdício de alimentos. Além da redução de perdas resultantes de más práticas nas atividades rurais, é necessário maior esforço para equilibrar a oferta e a demanda, para que não se desperdicem recursos naturais desnecessariamente”, diz.

 

ALTERNATIVAS

Para Bojanic, é possível trilhar alguns caminhos para combater o desperdício dos produtos alimentícios no mundo. No caso dos excedentes, a melhor opção é a reutilização deles na cadeia alimentar do ser humano, por meio de mercados secundários ou da doação aos mais vulneráveis da sociedade.

“Se os alimentos não estão em condições para o consumo humano, a alternativa mais adequada é desviá-los para a cadeia alimentar animal, poupando recursos que, de outra forma, seriam necessários para produzir ração comercial”, orienta.

Segundo o representante da FAO no Brasil, quando a reutilização não é viável, é possível pensar na reciclagem e na recuperação. “A reciclagem de subprodutos, a digestão anaeróbia, a compostagem e a incineração com recuperação de energia permitem que se recupere a energia e os nutrientes provenientes do desperdício, o que representa uma vantagem significativa em relação aos aterros.”

 

NECESSIDADES

Peritos estimaram, em 2013, que seria necessário um aumento de 60% da produção para responder às necessidades futuras da humanidade, um patamar insustentável para o planeta, cujos recursos em terra e água não são infinitos.

Para Mathilde Iweins, coordenadora de um relatório da FAO sobre os custos ambientais do desperdício, “as superfícies agrícolas utilizadas para a produção de alimentos que não serão utilizados equivalem às do Canadá e da Índia, em conjunto”.

Segundo ela, se considerar o desperdício alimentar como um país, este seria “o terceiro emissor de gás de efeito estufa, depois da China e dos Estados Unidos”, com um consumo de água equivalente a três vezes o Lago Léman (entre a Suíça e França).

 

SUBNUTRIÇÃO

A FAO mostra ainda, no relatório de 2013, que a subnutrição abrange 26% das crianças, que apresentam atraso no crescimento, e 1,4 bilhão de pessoas com excesso de peso, incluindo 500 milhões de obesos. O documento também avaliou que o custo econômico da subnutrição e das carências em micronutrientes representa de 2% a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, ou seja, entre US$ 1,4 bilhão e US$ 2,1 bilhões.

Conforme o Programa Alimentar Mundial (PAM), que fornece ajuda de emergência a 80 países, é urgente reforçar o número de mães e crianças que recebem produtos nutricionais especializados e focar esta atenção nos primeiros mil dias de vida.

“Se a comunidade internacional investisse US$ 1,2 bilhão por ano, durante cinco anos, na redução das carências em micronutrientes, a quebra da taxa de mortalidade infantil e o impacto positivo nos rendimentos futuros podiam atingir os US$ 15,3 bilhões”, indicou o PAM, citando especialistas do Consenso de Copenhague (Dinamarca), um projeto voltado ao bem-estar da humanidade.

“Conseguir o maior número possível de alimentos de cada gota de água, porção de terreno, partícula de fertilizantes e minuto de trabalho poupa recursos para o futuro e torna os sistemas mais sustentáveis”, citou a organização.

 

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Fonte: Revista A Lavoura – Edição nº 711/2015