Cadeia da batata diversificada

Publicado em 13/02/2017

O programa de melhoramento genético de batata da Embrapa, nos últimos oito anos, já disponibilizou quatro cultivares competitivas, cada uma voltada para diferentes finalidades mercadológicas. Foto: Divulgação

Para um cidadão leigo no assunto, as batatas são iguais e podem ser consumidas fritas, assadas ou cozidas. Servem ainda para fabricação de “chips”, batata palha ou palitos pré-fritos congelados. Mas, para quem realmente entende do assunto, a diferença é grande. Cada finalidade culinária exige certas características dos tubérculos, como quantidade de água e de matéria seca, por exemplo. Uma demanda que baliza a atuação constante da pesquisa. Por isso, há mais de 60 anos, a Embrapa trabalha com o melhoramento genético de batata, visando atender a estas e outras necessidades da cadeia produtiva.

 

OUTROS ASPECTOS

No entanto, embora as finalidades culinárias sejam fator importante para desenvolvimento de uma variedade de batata, outros aspectos interferem no posicionamento mercadológico da produção e também são considerados pela pesquisa no desenvolvimento de cultivares. Para atacadistas e varejistas, a principal característica para comercialização da batata para consumo é o aspecto visual: cor, formato e, claro, apresentação. Por isto, a lavagem da batata passou a ser uma operação fundamental na cadeia de comercialização.

Para o produtor, por outro lado, o desempenho no campo é um dos fatores que mais conta. A produtividade das cultivares e a resistência e tolerância a determinadas pragas e doenças podem fazer a diferença nos resultados da produção e, consequentemente, nos lucros ao final da safra. Fora isso, existe ainda a demanda pela oferta de batata-semente. Estima-se que 70% da batata semente necessária para a instalação de campos com qualidade fitossanitária é importada. A Embrapa já disponibiliza o material livre de viroses, mas as quantidades ainda são insuficientes para atender ao mercado interno.

 

NOVIDADE

A última novidade da Embrapa para o mercado das batatas é a BRS Camila, recentemente lançada, após 11 anos de pesquisa. Uma das principais características da BRS Camila é a resistência ao vírus Y, doença que causa degeneração das sementes e reduz a produtividade e a qualidade das lavouras. Com essa resistência, a cultivar garante maior número de multiplicações da semente, tornando-se mais barata e de melhor qualidade.

A BRS Camila apresenta boa aparência de tubérculos e elevado potencial produtivo. “O rendimento comercial chega a ser entre 10 a 20% superior à principal concorrente que está no mercado hoje”, estima o analista da Embrapa Produtos e Mercado, Antônio Bortoletto, tendo como base as avaliações junto aos cerca de dez produtores que estão testando a cultivar.

 

VERSÁTIL

A cultivar também é versátil na culinária, tendo sido desenvolvida para atender às crescentes exigências dos consumidores brasileiros. É voltada à cocção e pode ser preparada tanto assada quanto cozida, em função do seu teor de matéria seca. Nas análises sensoriais, apresentou sabor diferenciado e, por isso, também é indicada à cozinha especializada. “A expectativa é que atenda às demandas do produtor e satisfaça o consumidor”, explica o pesquisador Arione Pereira, um dos responsáveis pelo desenvolvimento da BRS Camila.

De acordo com Marcelo Kusman, engenheiro agrônomo e consultor do Grupo Schebeski, a BRS Camila ainda está em testes, mas já chama atenção dos produtores pela beleza e pelo formato. Além disso, Kusman estima produtividade semelhante à principal variedade cultivada no país. “A BRS Camila é uma variedade promissora para produção in natura. O cartão de visita dela é muito bom”, entusiasma-se.

 

CADEIA PRODUTIVA

A cadeia da batata, em nível global, ocupou, em 2012, cerca de 19 milhões de hectares, gerando uma produção de 307 milhões de toneladas do tubérculo. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a área nacional correspondia a 128 mil hectares, com produção de 3,5 milhões de toneladas — cerca de 18,4% da produção mundial —, sendo os três principais estados brasileiros produtores em área plantada: Minas Gerais (53%) Paraná (19%), São Paulo (18%), Rio Grande do Sul (10%) e Bahia (6%).

 

MERCADO

As cultivares de batata podem ser divididas em dois grandes grupos: as destinadas ao mercado in natura e as destinadas à fritura. Em relação ao mercado in natura, particularidades desta espécie fazem com que a vida útil de uma cultivar de batata seja bem maior do que a de grãos, por exemplo, o que dificulta a substituição de cultivares antigas e adoção de novas pelos produtores. Isso acontece por uma série de motivos.

O consumidor, pouco informado, dá importância maior para a aparência do que para a qualidade nutricional ou culinária. O mercado e o atacadista, por sua vez, não informam ao consumidor as diferenças entre as cultivares, preferindo uma única cultivar, por questões logísticas e de mercado. Finalmente, o produtor precisa atender ao atacadista, e por investir muito na produção, não se arrisca na experimentação de novas cultivares, que necessitam de manejo diferenciado em relação à cultivar padrão que ele está acostumado.

 

OPÇÕES DE ESCOLHA

A Associação Brasileira da Batata (ABBA) tem ciência destas dificuldades e está incentivando ações que visem ao fracionamento e a rotulagem dos produtos, para possibilitar ao consumidor opções de escolha e de informação. A Embrapa também tem ajudado, disponibilizando cultivares mais adaptadas ao ambiente brasileiro, o que desperta maior atenção dos produtores. Por serem mais adaptadas, são menos exigentes em defensivos e fertilizantes. Além disso, são tolerantes à seca, mais produtivas e possuem boa aparência e qualidade culinária.

Em relação ao mercado de produtos fritos, a indústria brasileira ainda é recente, e as principais carências são por cultivares que apresentem o básico: produtividade, alta porcentagem de matéria seca e baixo teor de açúcares redutores. Mas, que apresentem também adaptação ao clima mais quente do Centro-Oeste e ao armazenamento em câmaras frias durante os meses mais quentes do ano. A pesquisa está empenhada em desenvolver cultivares para este mercado, tendo já disponibilizado as cultivares BRS Ana e BRSIPR Bel, que estão sendo testadas pela indústria.

 

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Fonte: Revista A Lavoura – Edição nº 708/2015

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