Artigo: ‘Diversificar e/ou integrar: uma opção ou necessidade?’

29/01/2018|

Cultivo de milho consorciado com braquiária. Foto: Divulgação Agência de Notícias da Embrapa

Por Fernando Mendes Lamas *

Muitas vezes, recomendamos a diversificação das atividades, especialmente em uma propriedade rural. Será essa uma recomendação das mais acertadas? Eis, aí, a grande questão.

Não temos a menor dúvida da importância da diversificação das atividades para a sobrevivência de uma empresa. No entanto, a diversificação somente será interessante se entre as diferentes atividades existir alguma coisa em comum, principalmente, se uma das atividades contribuir para a redução do custo médio de outra atividade. A isso se denomina “economia de escopo”.

Até bem recentemente, nos preocupávamos mais com a economia de escala “que é aquela que organiza o processo produtivo, de maneira que se alcance a máxima utilização dos fatores produtivos envolvidos no processo, buscando como resultado baixos custos de produção e o incremento de bens e serviços”.

Em muitos casos, quando se busca aumentar a escala, com o objetivo de reduzir o custo de cada unidade produzida, pode haver redução de produtividade em função da dificuldade na gestão do processo. No entanto, para qualquer atividade humana, haverá um ponto em que, abaixo ou acima dele, identifica-se o estrangulamento no processo produtivo, especialmente em função da elevação dos custos de produção.

Mais recentemente, surge a economia circular, que “é o modelo econômico no qual o planejamento, suprimento, produção e reprocessamento são desenhados e gerenciados, tanto enquanto processo quanto resultado, para maximizar o funcionamento de ecossistemas e o bem-estar humano”. Nesse novo conceito, precisa ser considerado tanto por quem produz como por aquele que consome.

Em resposta à pergunta formulada no primeiro parágrafo desse artigo, após esses breves conceitos, entendo não haver dúvida da importância da diversificação. No entanto, os conceitos, ora apresentados, precisam ser considerados.

A sustentabilidade passa, necessariamente, pela integração e intensificação, termos que guardam entre si alguma similaridade.

Aqui, vamos considerar a integração como o conjunto de atividades onde os fundamentos da “economia de escopo” são considerados, mais do que isso, são exercitados.

Pense em uma propriedade rural qualquer, onde o produtor combina a avicultura de corte com a cultura de milho, ou seja, existe algum tipo de relação entre as atividades. No exemplo presente, os resíduos da avicultura são utilizados como fertilizantes para a cultura de milho.

Considerando que uma tonelada do resíduo da avicultura tem valor menor do que o equivalente em fertilizante químico, a utilização do resíduo vai contribuir para a redução do custo de produção. Considerando que o resíduo, além de fornecer nutrientes para as plantas de milho, proporciona melhoria nos atributos biológicos do solo, a produtividade física de milho com o uso do resíduo pode ser maior do que aquela que seria obtida com fertilizante químico.

Nesse caso, a avicultura contribui para a redução do custo de produção e na melhoria da produtividade do milho e melhora também o potencial produtivo do solo. Ao retirar o fertilizante químico e introduzir o resíduo da avicultura no sistema. Portanto, se o milho é o principal componente da ração a ser fornecida às aves, ela terá um menor custo e, por conseguinte, deverá ser mais lucrativa.

Outro exemplo de diversificação é o sistema em que, após a colheita da soja, em parte da área implanta-se o consórcio de milho com braquiária. Assim que o milho é colhido, a forrageira será utilizada para fornecer volumoso para bovinos.

Tem-se aí uma integração e intensificação (soja, milho e carne), um modelo que é sustentável. A intensificação também poderá ser dar por meio da irrigação, onde em uma mesma área, é possível a colheita, por exemplo, de soja, milho, trigo, feijão; grão de bico, dentre outras espécies.

A intensificação tecnológica é considerada por vários autores como sendo uma das principais vias para o crescimento da produção agropecuária brasileira. Da mesma forma, a pluralidade de atividades, desde que realizada de forma planejada, considerando todos os fundamentos necessários, também se constitui numa estratégia significativa para o aumento da produção agropecuária.

Concluindo, podemos afirmar que diversificar e/ou integrar é uma decisão que, se tomada com base nas informações necessárias, vai, sim, contribuir para a sustentabilidade de uma propriedade rural, independentemente de seu tamanho. Ela pode, inclusive, ser uma estratégia para o pequeno agricultor se proteger das imperfeições do mercado.

Para isso, é preciso que, no processo de diversificação/integração, as atividades sejam planejadas para que se diminua a dependência externa, ou seja, que o produtor passe a produzir parte daquilo que, em outras condições, ele teria que buscar no mercado, muitas vezes a preços aviltados.

* Fernando Mendes Lamas é engenheiro agrônomo, mestre em Fitotecnia (Produção Vegetal – Manejo do Algodoeiro), doutor em Agronomia (Produção Vegetal – Reguladores de Crescimento) e pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste (MS)

Fonte: Embrapa Agropecuária Oeste com edição d’A Lavoura

 

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