A Lavoura debate sobre bem-estar com criação fora das celas, no Dia dos Animais

04/10/2017|

Em alusão ao Dia Mundial dos Animais, comemorado em quatro de outubro, a Revista A Lavoura publica reportagem “Bem-estar: livre das celas?”, divulgada na edição nº 700/2014 (páginas 47 a 49).

Em janeiro de 2014, produtores suínos de peso fizeram importantes anúncios que sinalizam progresso quanto a acabar com o uso das pequenas e restritivas gaiolas usadas para confinar matrizes suínas, conhecidas como celas de gestação.

A Smithfield Foods, um dos maiores produtores suínos do mundo, informou (em 2014) aos fornecedores que, se eles fizerem planos para eliminar as celas de gestação, terão seus contratos estendidos; mas caso se recusarem a fazer a conversão para um sistema de alojamento livre de celas, será improvável que seus contratos sejam renovados.

Os fornecedores terão oito anos (a contar do ano de 2014) para fazer a mudança, mas se ela
for feita em um período mais curto, resultará em melhores contratos.

FIM DO CONFINAMENTO

Em 2007, a empresa inovou ao anunciar que, até 2017, 100% de suas instalações próprias não mais usarão celas de gestação. Mas, enquanto a maioria das matrizes suínas na cadeia de fornecimento da Smithfield é proveniente de unidades de produção próprias, uma grande proporção ainda vem de produtores contratados.

Essa lacuna significava que uma quantidade substancial de porcos na cadeia da Smithfield permaneceria em celas de gestação indefinitivamente. Assim, a empresa acaba de anunciar que corrigirá essa deficiência ao pedir que seus fornecedores também façam a conversão até 2022, e sob a especificação de que conversões mais rápidas significarão melhores contratos.

O progresso contínuo da Smithfield com relação ao fi m do confinamento, por toda a vida de porcas reprodutoras, significa que outros grandes atores da indústria terão pouco espaço para manobra. Um dos maiores produtores globais está dizendo ao mundo que o abandono do uso de celas de gestação não é apenas uma aspiração, mas algo que está acontecendo, sendo economicamente viável e possível de ser atingido no curto prazo.

Poucos dias depois do anúncio da Smithfield, a Tyson Foods, grande produtor suíno norte-americano, com operações no Brasil e sede em Curitiba, também deu passos na mesma direção. A empresa, cuja produção é primordialmente realizada por fornecedores contratados e independentes, enviou uma carta para todos os atores de sua cadeia de fornecimento ressaltando a necessidade de criação de melhorias desejáveis em seu programa de bem-estar animal.

A carta contém vários aspectos promissores sobre diversos pontos relativos ao bem-estar animal, como o encorajamento do abandono da prática de sacrificar leitões doentes ou machucados por traumatismo causado por arremesso ou golpes; e a adoção de métodos para aliviar a dor durante os procedimentos de castração e corte de caudas.

A Tyson também abordou o confinamento em celas de gestação. “Nós acreditamos que futuros sistemas de alojamento para matrizes suínas de todos os tamanhos devem permitir que os animais sejam capazes de se levantar, se virar, se deitar e esticar suas pernas”, escreveu a empresa.

A afirmação indica que as celas de gestação – que impedem a realização desses comportamentos – devem ser substituídas por sistemas de alojamento alternativos.

“Nós estamos pedindo que nossos fornecedores, que administram as matrizes de propriedade da Tyson, implementem melhores condições em termos de quantidade e qualidade de espaço no design de qualquer nova instalação ou em sistemas de alojamento reformados a partir de 2014. Nós também fortemente encorajamos que os produtores suínos independentes, que vendem porcos à Tyson, melhorem o tamanho e a qualidade do espaço destinado a matrizes suínas, quando eles ou seus fornecedores de leitões reformarem ou construírem novas instalações de gestação”, completou a Tyson.

GRANDE PASSO

Mesmo que a carta da Tyson não faça uma imposição concreta aos seus fornecedores, no que se refere ao alojamento de matrizes, e também não delimite um prazo para que sistemas alternativos sejam implementados, esse é um grande passo vindo de uma importante empresa.

Ambos os anúncios – da Smithfield e da Tyson – acontecem depois que mais de 60 das maiores empresas alimentícias do mundo (como McDonald’s, Burger King, Safeway, Costco, Oscar Mayer e diversas outras), anunciaram que eliminarão o uso de celas de suas cadeias de fornecimento nos Estados Unidos.

Matrizes suínas são frequentemente confinadas em celas durante seus quatro meses de gestação. As celas têm praticamente o mesmo tamanho do corpo dos animais e são projetadas para impedir que eles possam até mesmo se virar dentro delas. Um pouco antes da parição, as porcas são transferidas
para celas de parição, que são similarmente restritivas.

Depois da parição, as porcas são re-inseminadas e colocadas novamente em celas de gestação, o que resulta em anos de imobilização quase total para esses animais. Esse sistema de confinamento tem sido criticado por veterinários, produtores, defensores do bem-estar animal, cientistas, consumidores e outros.

Durante a última década, a Humane Society of The United States (HSuS) e seu braço global, a Humane Society international (HSi) – um dos maiores grupos de proteção animal do mundo – têm focado seus trabalhos em acabar com o uso de celas de gestação na indústria suína. A HSI trabalha
com empresas alimentícias internacionais para que suas políticas de eliminar o uso de celas de gestação sejam estendidas ao Brasil.

“Nós continuaremos a ajudar grandes varejistas e produtores a se comprometer com políticas de
compra ou produção livres de celas. E nós esperamos que mais uma série de novos anúncios aconteça, em nível global e também aqui no Brasil”, declarou a HSI.

SEM SOFRIMENTO

No Brasil, uma pesquisa conduzida pelo Instituto Akatu revelou que 87% dos consumidores preferem comprar produtos que não imponham sofrimento aos animais durante a produção, se eles tiverem a escolha.

A ciência prova que as celas de gestação causam uma maior predisposição das porcas vivenciarem tédio, frustração, trauma psicológico e outros problemas de saúde, como infecções urinárias e paralisias nos pés ou pernas. Ambos os fatos, se analisados de forma conjunta, fortemente sugerem que varejistas e produtores suínos brasileiros poderiam se beneficiar com a adoção de métodos de produção que não usam celas.

Ao redor do mundo, governos também estão aprovando legislações que favorecem métodos de produção sem o uso de celas. O uso de celas de gestação – com exceção das primeiras quatro semanas de gravidez – foi proibido na União Europeia em 2013. A Nova Zelândia proibirá o uso de celas de gestação em 2015 (após a publicação dessa edição da Revista A Lavoura, outras informações apontaram que essa proibição ocorreria até 2017).

O Canadá também está considerando uma proibição nacional. Associações de produtores da Austrália e África do Sul também se comprometeram a restringir o confinamento contínuo em celas de gestação até 2020.

Nove estados dos EUA já baniram o confinamento em celas e diversos outros considerarão aprovar legislação similar este ano. Nós acreditamos que, em um futuro não muito distante, todas as pessoas reconhecerão que a era de imobilizar porcas em em celas, praticamente do mesmo tamanho de seus corpos, foi um triste capítulo na história da agropecuária.

Quando essa transição for feita, muitas pessoas se perguntarão como os líderes da indústria defenderam essa condição de privação e miséria contínua por tanto tempo, e como os legisladores e outros em posições de poder não fizeram algo a respeito mais rapidamente.

DESTAQUES DA CAPA DA EDIÇÃO Nº 700/2014

Fonte: A Lavoura – Edição nº 700/2014

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